Mitos e Verdades sobre a Avaliação Neuropsicológica Remota

A tecnologia ocupa, cada vez mais, um espaço central em nosso cotidiano. Assistimos a aulas ministradas por professores que estão a quilômetros de distância, resolvemos questões bancárias com poucos toques na tela do celular, agendamos consultas por aplicativos e nos comunicamos instantaneamente com pessoas em diferentes partes do mundo. Nesse contexto de transformação digital, era apenas uma questão de tempo até que essas ferramentas também se integrassem ao campo da Psicologia e da Avaliação Neuropsicológica.

Especialmente após a pandemia de COVID-19, a necessidade de realizar atendimentos e processos avaliativos de forma remota tornou-se mais evidente. Durante o período de isolamento social, a Avaliação Neuropsicológica online mostrou-se uma importante alternativa para garantir a continuidade do cuidado e do acompanhamento psicológico. Atualmente, mesmo após o fim das restrições sanitárias, o uso da tecnologia permanece como um recurso valioso, permitindo superar barreiras geográficas entre profissional e paciente e possibilitando que o processo de avaliação ocorra, em muitos casos, no conforto do próprio lar.

No Brasil, o uso de tecnologias digitais na prática psicológica é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia. As Resoluções CFP nº 09/2024 e nº 31/2022 estabelecem diretrizes para o atendimento psicológico mediado por tecnologias e para a avaliação psicológica. De acordo com essas normativas, a avaliação psicológica online é permitida, desde que sejam utilizados testes favoráveis para aplicação informatizada ou online (remota), além de serem garantidas condições adequadas de segurança de dados, qualidade técnica da plataforma utilizada e fidelidade na aplicação dos instrumentos.

Considerando que esse tema ainda desperta muitas dúvidas, curiosidades e até algumas especulações, reunimos a seguir seis mitos e verdades sobre a Avaliação Neuropsicológica Remota. Venha conferir!

 

  • A Avaliação Neuropsicológica Online é mais superficial do que a presencial.

 

Mito! Apesar da distância física entre profissional e paciente, a Avaliação Neuropsicológica Online deve ser tão aprofundada e completa quanto a presencial. 

 

É importante considerar que a qualidade de uma avaliação neuropsicológica depende muito mais do raciocínio clínico do profissional, da observação do comportamento, da escolha adequada dos instrumentos e da integração das informações obtidas ao longo do processo avaliativo do que do formato em que ela é realizada.

Na modalidade remota, o neuropsicólogo conduz todas as etapas fundamentais do processo avaliativo: investigação clínica, coleta de dados, análise do funcionamento cognitivo e comportamental e aplicação de instrumentos validados para o uso online. Dessa forma, a avaliação continua sendo um processo amplo, sistematizado e baseado em evidências científicas, mesmo quando realizada à distância.

 

  • Existem testes que só podem ser aplicados presencialmente.

 

Verdade! Nem todos os instrumentos neuropsicológicos foram desenvolvidos ou validados para  a aplicação remota.

Quando falamos sobre instrumentos neuropsicológicos, devemos levar em conta que existe uma grande diversidade de testes, tarefas, questionários e escalas com suas próprias normas e instruções de aplicação e correção. Alguns podem exigir a manipulação de materiais físicos, observação direta de determinadas respostas motoras, condições específicas de aplicação ou simplesmente não possuírem estudos que validem sua aplicação remota, inviabilizando o uso online.

Dessa forma, é dever do profissional selecionar cuidadosamente os instrumentos que serão utilizados em cada caso, levando em consideração o formato de aplicação, as particularidades do avaliando e as diretrizes técnicas e éticas da área.

 

  • Não é possível observar comportamento na avaliação online.

 

Mito! Embora a observação comportamental seja mais ampla na avaliação presencial, onde é possível acompanhar aspectos como postura corporal, deslocamento no ambiente e interação com materiais e terceiros, a avaliação remota também permite observações clínicas relevantes.

Durante o processo de avaliação remota, o profissional observa diversos aspectos do comportamento do avaliando, como expressões faciais, tempo de resposta, estratégias para resolver tarefas, sinais de frustração, impulsividade, persistência diante de dificuldades e capacidade de manter atenção. Além disso,  o formato online permite ao profissional observar como o paciente se organiza em seu próprio ambiente, como lida com instruções quando não há supervisão direta e como responde a possíveis distrações.

Além disso, a observação comportamental não precisa se restringir apenas aos momentos de sessão. Para além das observações realizadas pelo profissional nos momentos de contato com o paciente, podem ser utilizados vídeos e outros materiais complementares, como observações realizados por familiares e outras pessoas próximas. Nesse contexto, o profissional responsável pela avaliação pode solicitar gravações ou relatos de comportamentos específicos que possam ser relevantes para o raciocínio clínico.

Portanto, apesar de diferente da observação realizada na avaliação presencial, a observação comportamental permanece sendo parte fundamental da avaliação neuropsicológica remota. O que muda não é a possibilidade de observar, e sim o contexto em que essa observação ocorre.

 

  • Na avaliação online é mais fácil “maquiar” as dificuldades.

 

Meia verdade! É comum que surjam preocupações sobre possíveis interferências externas no ambiente doméstico ou até mesmo sobre a possibilidade de o paciente tentar mascarar suas dificuldades. No entanto, o contexto remoto também pode revelar aspectos importantes do funcionamento cotidiano que nem sempre aparecem no consultório.

Em muitos casos, por estarem em um ambiente familiar, os pacientes se sentem mais confortáveis e tendem a agir de maneira mais natural do que em um espaço novo e controlado como o consultório. Além disso, estar em um ambiente cotidiano pode tornar mais visíveis dificuldades relacionadas à rotina, autonomia e gestão de tarefas. Por exemplo, durante a avaliação online podem surgir indícios como dependência excessiva de terceiros para iniciar tarefas, dificuldade de organização do espaço ou materiais, distrações frequentes com estímulos do ambiente ou até mesmo dificuldade de manter o foco sem supervisão direta.

Outro ponto importante é que a avaliação neuropsicológica não se baseia em um único dado isolado. O profissional integra diferentes fontes de informação, como entrevista clínica, observação comportamental, desempenho em tarefas e instrumentos padronizados, construindo um raciocínio clínico ao longo de todo o processo.

Assim, mesmo que exista alguma tentativa de mascarar dificuldades ou interferências externas pontuais, um profissional experiente costuma perceber quando algo não se encaixa no conjunto das informações coletadas. Incoerências entre relatos, comportamento observado e desempenho nas tarefas podem levantar sinais de alerta durante a análise dos dados. Quando o raciocínio clínico não “fecha”, o profissional reconhece que algum elemento pode não estar refletindo fielmente o funcionamento do paciente e passa a investigar essa discrepância com mais cuidado.

Além disso, uma estratégia para evitar que certas dificuldades sejam “mascaradas” no processo de avaliação remota é ampliar as fontes de heterorrelatos. Ao buscar informações de fontes variadas, o  profissional garante que sua análise não sofra interferência das limitações do meio digital ou mesmo de um único ponto de vista acerca do perfil do paciente. Com isso, os heterorrelatos atuam de forma a fortalecer o processo de avaliação neuropsicológica remota.

Dessa forma, embora exista a possibilidade de interferências externas, o formato remoto de avaliação pode, em muitos casos, expor aspectos importantes do funcionamento cognitivo e comportamental do paciente. Essas informações também fazem parte da análise clínica e ajudam o profissional a compreender como o paciente funciona no dia a dia.

 

  • A avaliação remota é indicada para qualquer caso.

 

Mito! Embora a Avaliação Neuropsicológica remota tenha se mostrado uma alternativa válida em muitos contextos, ela não é indicada para todo e qualquer caso.

É importante que a decisão entre realizar a avaliação de forma online ou presencial seja feita considerando aspectos clínicos, técnicos e éticos. Antes de optar pela modalidade remota, deve-se levar em conta fatores relacionados ao contexto e às características particulares de cada paciente.

Em avaliações com crianças ou com dificuldades atencionais significativas, por exemplo, permanecer diante da tela e compreender instruções sem mediação direta pode representar um grande desafio. Da mesma forma, pessoas idosas sem familiaridade com tecnologias digitais podem apresentar dificuldades para participar ativamente do processo.

Também é fundamental considerar as condições do ambiente onde será realizada a avaliação e os recursos tecnológicos disponíveis. Para que a avaliação ocorra de forma adequada, é necessário um espaço tranquilo, seguro e livre de interrupções, além de conexão estável à internet, câmera e microfone funcionando adequadamente.

Outro aspecto importante é o nível de autonomia do paciente. Algumas pessoas podem precisar de maior apoio ou mediação direta para compreender instruções e se engajar nas tarefas avaliativas.

Por fim, a própria queixa clínica ou hipótese diagnóstica e os instrumentos necessários para a investigação também influenciam essa decisão, já que algumas ferramentas estão restritas à aplicação presencial.

Por isso, antes de iniciar o processo avaliativo, o profissional deve realizar uma análise cuidadosa, avaliando se o formato remoto é realmente apropriado para aquele caso. O objetivo é sempre garantir qualidade, validade dos resultados e respeito às boas práticas da avaliação neuropsicológica.

 

  • O formato online pode ampliar o acesso à avaliação.

 

Verdade! Um dos maiores benefícios da avaliação neuropsicológica online é a possibilidade de ampliar o acesso a serviços especializados. 

Em muitas regiões, especialmente em cidades pequenas ou áreas rurais, pode ser difícil encontrar profissionais com formação específica em avaliação neuropsicológica. A modalidade remota permite que essas pessoas tenham acesso a especialistas que, de outra forma, estariam disponíveis apenas em grandes centros.

Além da questão geográfica, a avaliação online também pode beneficiar pessoas que enfrentam dificuldades de deslocamento, como limitações físicas, rotinas muito intensas, longas distâncias até clínicas especializadas ou falta de transporte adequado. Ao reduzir o tempo e os custos relacionados a deslocamentos, torna-se mais viável iniciar e concluir o processo avaliativo.

Assim, quando realizada de acordo com critérios técnicos e éticos, a avaliação neuropsicológica online pode ser uma ferramenta importante para democratizar o acesso ao atendimento de qualidade, levando serviços especializados a pessoas que antes tinham poucas possibilidades de atendimento.

 

Conclusão

 

Quando pensamos em avaliação neuropsicológica, é comum imaginar o atendimento acontecendo exclusivamente no consultório. No entanto, como vimos ao longo deste texto, a modalidade remota vem se consolidando como uma alternativa válida, segura e, em muitos casos, bastante eficiente.

Mais do que substituir o formato presencial, a avaliação online amplia possibilidades. Ela permite alcançar pessoas que vivem longe de centros especializados, que enfrentam dificuldades de deslocamento ou que precisam conciliar múltiplas demandas do dia a dia. Ao mesmo tempo, também traz novos elementos de observação, ajudando o profissional a compreender como o paciente funciona em seu próprio contexto.

Isso não significa que a avaliação remota seja indicada para todos os casos. A escolha do formato deve sempre considerar as características do paciente, os objetivos da avaliação e os instrumentos necessários para a investigação. Por isso, a decisão é feita de forma cuidadosa e individualizada.

No fim das contas, o mais importante não é se a avaliação acontece online ou presencialmente, mas sim a qualidade do processo: um trabalho conduzido com responsabilidade, critérios técnicos e sensibilidade clínica.

Quando esses elementos estão presentes, a avaliação neuropsicológica, seja remota ou presencial, cumpre seu principal papel: compreender o funcionamento do indivíduo de forma aprofundada e contribuir para caminhos de cuidado mais adequados e efetivos.

 

Escrito por: 

 

Rafaela Pereira Nóbrega
9º Período de Psicologia
PUC Minas
Estagiária Neuropsicoterapia
[email protected]