Após todo o período de avaliação, com sessões de anamnese, testagem, heterorrelatos e intenso raciocínio clínico, chega o momento tão esperado: a devolutiva. É esperado que esse momento seja atravessado pelas expectativas, receios e crenças dos pais. Afinal, o grande objetivo da avaliação neuropsicológica é fornecer respostas e direcionamentos para questões que, muitas vezes, geram angústia há bastante tempo .
São diversas as dúvidas que podem surgir diante dos profissionais que se preparam para um momento tão essencial para a avaliação quanto a devolutiva, especialmente quando é necessário comunicar resultados difíceis às famílias. Qual a melhor forma de se comunicar? O que fazer quando os resultados não são bem recebidos? Como transmitir os aspectos técnico-científicos sem deixar de lado o acolhimento?
Com o intuito de ampliar essa discussão e refletir sobre os desafios que envolvem esse momento, convidamos a Dra. Annelise Júlio-Costa, psicóloga, neuropsicóloga, integrante da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp) e fundadora da Neuropsicoterapia, para compartilhar sua experiência no manejo de situações em que resultados delicados precisam ser comunicados às famílias.
A seguir, confira os principais pontos destacados por ela como fundamentais para que a devolutiva aconteça de forma ética, empática e tecnicamente consistente.
Pergunta 1:
É comum que sentimentos de ansiedade venham a surgir nas famílias diante da aproximação da data tão esperada da devolutiva. O que você considera como essencial para que esse momento seja realizado da melhor forma?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
“Eu parto do princípio de que a ansiedade na devolutiva é intrínseca ao processo. Então, a primeira coisa que eu faço não é tentar contornar isso de forma sutil, mas reconhecer explicitamente. Eu sempre começo perguntando: ‘Como você está? Você está ansioso? O que você está sentindo?’.
Quando eu nomeio essa emoção e dou espaço para ela aparecer, eu consigo ajustar a minha comunicação à demanda daquela pessoa. Se eu finjo que a ansiedade não existe, eu perco a chance de manejar isso desde o início.
Logo depois, eu também pergunto o que a pessoa espera desse processo. Muitas vezes, a ansiedade está ligada a um medo específico: medo do futuro da criança, medo de um diagnóstico ou medo de não conseguir trabalhar, no caso de adultos, por exemplo. Quando eu sei qual é a expectativa ou o temor, eu já consigo trazer alguns confortos e manejos iniciais. Com adultos, por exemplo, eu costumo dizer que nenhum resultado invalida quem a pessoa sempre foi. A avaliação não define identidade, ela organiza informações sobre funcionamento.
Outra coisa importante é que eu monitoro a ansiedade o tempo todo durante a devolutiva. Eu transformo esse momento em diálogo. Pergunto se o que estou dizendo está fazendo sentido, deixo claro desde o início que a pessoa pode me interromper quando quiser. Porque, se ela não está entendendo, isso gera angústia. Uma prática sugerida para serviços de saúde é pedir para a pessoa explicar o que ela entendeu. Tal estratégia permite que o profissional verifique se o processo está realmente fazendo sentido para o paciente
Quando a devolutiva vira uma construção conjunta, e não uma fala unilateral minha, o nível de estresse diminui bastante. A pessoa se sente incluída no processo, e isso por si só já reduz a ansiedade.”
Pergunta 2:
A reação das famílias diante das conclusões da avaliação, muitas vezes, acaba sendo fonte de receio de profissionais. Como agir quando as conclusões clínicas não são bem aceitas pela família? Quais estratégias você utiliza quando existem divergências entre os resultados da avaliação e a expectativa dos pais?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
“Eu vejo muito isso em supervisão. Muitos profissionais ficam apreensivos quando percebem que a conclusão pode não corresponder à expectativa da família. Mas, no Método Neuropsicoterapia, a devolutiva não se restringe ao último dia, ela começa já no primeiro encontro .
Desde a anamnese, as expectativas dos pais aparecem. E, muitas vezes, já é possível fazer pequenas intervenções, manejar algumas questões com uma pegada um pouco mais terapêutica. O manejo não fica para o final. Ele começa ali.
À medida que eu vou construindo o perfil do paciente, eu também vou compartilhando isso com os pais ao longo do processo. No final das sessões, eu compartilho características observadas, faço perguntas, observo as reações. Isso vai preparando o terreno para a devolutiva. Então, quando chega a conclusão, ela não deveria ser algo totalmente inesperado.
Eu vou dar uma resposta que pode ser um pouco impopular: eu acredito que muito do receio em relação à reação dos pais passa pela insegurança do próprio profissional. É claro que não é simples ouvir que o você/seu filho tem alguma dificuldade. Existe tristeza, existe frustração. Mas, se a pessoa/família procurou uma avaliação, é porque ela já entende minimamente que existe alguma questão ali. Ninguém mobiliza tempo, energia e dinheiro para um processo de avaliação na clínica se não percebe alguma dificuldade. As raras exceções são para aquelas pessoas que procuram avaliação para autoconhecimento.
Assim, quanto mais consistente eu sou, quanto mais eu mostro que eu conheço aquela criança para além de termos técnicos ou citações de artigos, mais tranquila a família tende a ficar. O ponto central é fazer sentido para eles.
Eu preciso pegar o conhecimento técnico e aplicar à vida real daquela criança. Quando os pais conseguem enxergar a criança na minha descrição, quando eles reconhecem o filho ali, a conclusão deixa de parecer algo imposto. Ela passa a ser só a nomeação técnica de algo que eles já vinham percebendo.
E quando isso ainda não está claro para eles, a gente constrói essa percepção ao longo do processo. A gente coloca os comportamentos em perspectiva, compara contextos, amplia a compreensão. A devolutiva, nesse sentido, é a consolidação de algo que foi sendo construído junto, não uma surpresa.”
Pergunta 3:
Quando uma família se depara com um diagnóstico, é natural que surjam muitas dúvidas: o que isso significa para o futuro do paciente? Quais serão suas possíveis limitações? O que pode ser estimulado?. Que orientações você daria à alguém que precisa comunicar um prognóstico difícil sem despertar sentimentos de desesperança na família?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
“Primeiro, é importante considerar o contexto do caso. Quando falamos de perfis com maior impacto funcional, raramente a Avaliação Neuropsicológica é o primeiro atendimento. Em geral, essas famílias já passaram por outros profissionais e já vivenciam, no dia a dia, os prejuízos funcionais. Ou seja, muitas vezes o impacto já é percebido antes mesmo da devolutiva formal.
Também é preciso levar em conta a fase do desenvolvimento. Em crianças muito pequenas, salvo raras exceções, é difícil fechar prognósticos mais rígidos, porque ainda há ampla possibilidade de estimulação e desenvolvimento. Já na adolescência ou na vida adulta, os impactos funcionais costumam estar mais evidentes na rotina. Diferentemente de algumas condições da saúde física, em que o prognóstico pode ser reservado, mas o funcionamento momentâneo está preservado, na saúde mental os prejuízos já estão sendo experimentados concretamente pela família.
Nesse cenário, uma das principais tarefas do profissional é calibrar expectativas. Elas frequentemente oscilam entre dois extremos: idealização excessiva ou catastrofização. Nosso papel técnico é apresentar o perfil real daquela pessoa, contextualizar suas dificuldades e potencialidades e colocá-las em perspectiva.
Em diagnósticos como deficiência intelectual, por exemplo, o peso emocional pode ser ainda maior, especialmente em famílias que valorizam fortemente o desempenho acadêmico. Nesses casos, é necessário reorganizar o foco. Talvez a aprendizagem formal precise ser vista com mais cautela, mas a escola pode assumir um papel central como espaço de socialização, inclusão e desenvolvimento de independência. Muitas vezes, o que torna o prognóstico mais difícil não é apenas a complexidade do caso, mas o choque com os valores e expectativas daquela família.
Levando tudo isso em conta, situações em que a família é completamente surpreendida pela devolutiva não são tão frequentes. Quando isso ocorre, pode ser um indicativo de que houve alguma falha na construção do processo ao longo da avaliação. Ainda assim, é fundamental estar preparado para acolher tristeza, desorganização emocional e até um primeiro momento de desesperança. A família precisa de tempo para receber e elaborar a notícia. Ao mesmo tempo, é essencial lembrar que não temos o direito de destruir a esperança de ninguém. Precisamos ser honestos, mas também responsáveis. Uma estratégia útil é organizar a conversa a partir de prioridades concretas: “as coisas primeiras, primeiro”, como gosto de dizer quando recebo perguntas de respostas a longo prazo.
Quando surge a pergunta direta, “Vai conseguir ou não?”, a resposta precisa ser clara e ética: ninguém tem bola de cristal. Algumas pessoas respondem muito bem às intervenções, outras têm evolução mais limitada. O tempo e a resposta terapêutica indicarão até onde será possível chegar.
Outro ponto central é que o plano proposto precisa caber na realidade financeira, emocional e prática da família. Não adianta desenhar um projeto ideal no papel se ele não for executável. A responsabilidade do profissional é construir o melhor caminho possível dentro das condições reais daquela família.
Por fim, é fundamental reforçar que, mesmo em prognósticos difíceis, sempre há algo a ser feito. Às vezes o foco muda: em vez de centrar apenas na autonomia a longo prazo, passa-se a priorizar qualidade de vida, independência possível e funcionalidade dentro do contexto real. Comunicar um prognóstico difícil não significa retirar a esperança, significa substituir uma esperança idealizada por uma esperança possível, concreta e responsável.”
Pergunta 4:
Um laudo de Avaliação Neuropsicológica costuma reunir números, escores e resultados de diferentes instrumentos. É natural que as famílias queiram compreender esses dados, mas como proceder quando há um apego excessivo aos resultados dos testes?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
“Eu costumo dizer que uma boa devolutiva começa muito antes da própria devolutiva. Ela começa quando eu pergunto aos pais ou ao próprio paciente qual é a expectativa em relação à avaliação. Muitas vezes já aparece nesse momento a ideia de que “os testes vão dizer quem a pessoa é” ou que os resultados vão trazer uma resposta definitiva.
Então, desde o início, eu faço uma psicoeducação sobre o que é a Avaliação Neuropsicológica e qual é o papel dos testes dentro desse processo. Os testes são ferramentas. Eles nos ajudam a operacionalizar e medir determinadas características, mas não esgotam a compreensão da pessoa. A gente precisa sempre considerar o quanto aquele resultado se traduz ou não na realidade clínica do paciente.
Quando os pais entendem que o teste é um instrumento, e não um veredito, eles ficam mais confortáveis. Eu explico que aquela pontuação é uma forma padronizada de observar um funcionamento específico, mas que essa característica é analisada sob diferentes ângulos: histórico, comportamento durante a avaliação, contexto familiar, escolar e emocional.
Muitas vezes eu uso o próprio teste como exemplo do que acontece na vida real. Por exemplo, em uma tarefa de memória verbal, uma pessoa muito ansiosa pode ter um desempenho abaixo do esperado. Mas isso não significa, necessariamente, uma dificuldade estrutural de aprendizagem. Pode refletir o impacto da ansiedade, da desatenção ou da pressão por desempenho.
Então eu faço um paralelo: “Você já percebeu que, quando está muito ansioso, acaba esquecendo informações?” Ou, no caso de uma criança: “Quando ela está nervosa ou com medo de errar, pode ter mais dificuldade para aprender.” Assim, a família entende que o resultado não é um rótulo, mas uma fotografia daquele desempenho em determinadas condições.
O nosso papel é contextualizar. É mostrar que o teste aponta caminhos, levanta hipóteses e organiza informações, mas quem dá sentido ao resultado é a análise clínica integrada. Quando conseguimos fazer essa construção ao longo do processo, e não apenas no dia da devolutiva, o apego excessivo aos números tende a diminuir. Porque, no fim das contas, o que importa não é o número em si, mas o que ele significa dentro da história e da realidade daquela pessoa.”
Pergunta 5:
É comum que, diante do recebimento de um diagnóstico, as famílias sejam invadidas por pensamentos como: “Eu poderia ter feito algo para evitar isso?” ou “Eu contribuí de alguma forma para que a situação chegasse a esse ponto?”. Como lidar com os sentimentos de culpa da família após a notícia de um diagnóstico?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
“Esse é, para mim, um ponto muito delicado. Principalmente porque trabalho bastante com Transtornos do Neurodesenvolvimento identificados mais tardiamente. Nesses casos, é muito comum surgir a pergunta: “E se eu tivesse percebido antes?”, “E se eu tivesse feito algo diferente?”, “Será que eu causei isso de alguma forma?” Nem sempre essa culpa aparece de forma explícita, mas ela pode estar ali, atravessando a fala da família. E lidar com isso exige muito mais do que conhecimento técnico em avaliação. Exige habilidade clínica e repertório de psicoterapia.
O primeiro passo é o acolhimento. A gente precisa validar aquele sentimento. Não adianta simplesmente dizer “você não tem culpa”. É importante reconhecer que, para aquela mãe, para aquele pai, pensar que poderia ter feito diferente dói. Validar não significa confirmar a culpa, mas reconhecer o sofrimento.
Eu costumo trabalhar muito com princípios da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Uma pergunta que eu trago é: “O que era possível ser feito com os recursos, informações e condições que vocês tinham naquele momento?” Porque as decisões sempre são tomadas com base no repertório e nas circunstâncias disponíveis naquela fase da vida. A família na maioria das vezes fez o melhor que podia, mesmo que hoje, com mais informação, pareça insuficiente. E é importante também mostrar características do próprio caso: transtornos do neurodesenvolvimento não são causados por falhas parentais. Eles têm bases multifatoriais, muitas vezes neurobiológicas. Isso ajuda a deslocar a ideia de culpa para uma compreensão mais ampla do quadro.
Outro ponto essencial é ajudar a família a sair da pergunta “por que isso aconteceu?” e caminhar para “o que podemos fazer a partir de agora?”. A culpa paralisa. A responsabilização saudável mobiliza.
Então, a gente acolhe, valida, contextualiza e, gradualmente, reposiciona a família no presente. O foco passa a ser: como podemos, hoje, com o que sabemos agora, construir as melhores possibilidades daqui para frente? Porque o diagnóstico não é um julgamento do passado. Ele é um instrumento para orientar o futuro.”
Pergunta 6:
Sabemos que um dos objetivos mais importantes da devolutiva da Avaliação Neuropsicológica é orientar condutas da família. No entanto, esse processo pode se tornar mais complexo quando pais ou cuidadores apresentam opiniões divergentes ou estilos parentais bastante distintos. Como conduzir a devolutiva quando há formas diferentes e, por vezes, opostas de compreender e lidar com o perfil do paciente?
Dra. Annelise Júlio-Costa:
Para ser muito sincera, eu acho excelente quando os pais têm estilos parentais diferentes, até opostos. Porque isso revela que existe movimento, existe tensão, existe reflexão. E quase sempre há algum desconforto entre as partes sobre o que fazer com a criança. Mas eu costumo usar isso a favor do processo.
Na devolutiva, eu trago a ideia de que essas divergências não precisam ser vistas como fraqueza do casal, mas como potencial de força. O que a gente precisa construir é orientação parental baseada no que é mais relevante para aquela criança, e um dos pontos mais importantes, independentemente do estilo, é a consistência parental.
Mesmo que os pais não concordem entre si em tudo, para a criança é fundamental que as decisões apareçam de forma coerente e consistente. A inconsistência pesa muito no desenvolvimento, porque a criança não sabe o que esperar, não sabe qual é o limite, qual é a referência.
Então eu digo algo como: “Independentemente do que vocês discordam entre si, para o seu filho isso precisa aparecer de forma alinhada.” Para a criança, o que precisa aparecer é previsibilidade.
E eu também costumo reforçar que, na maioria das vezes, a melhor estratégia está no meio termo. Um pai pode ser muito bom em estabelecer limites, ter firmeza e organização. A mãe pode ser excelente em acolhimento emocional, sensibilidade e leitura afetiva. Quando esses dois estilos se reconhecem e se complementam, o casal se fortalece.
Se os dois pensam exatamente igual o tempo todo, não há complementaridade. Quando pensam diferente, podem ampliar o repertório da criança. O excesso de um pode ser equilibrado pelo outro. A falta de um pode ser suprida pelo outro.
Então, o manejo passa por tirar o foco da disputa “quem está certo?” e colocar no projeto comum: “O que é melhor para essa criança?”. Quando o casal entende que a divergência pode ser estratégica, e que a consistência é o ponto-chave, eles deixam de competir e começam a cooperar. E aí, de fato, se tornam muito mais fortes como equipe parental.”
Conclusão
No fim das contas, a devolutiva não precisa ser um momento tenso ou temido. Como a Dra. Annelise nos mostra, quando o processo é construído com base no diálogo, transparência e acolhimento desde o início, os resultados deixam de ser uma surpresa e passam a ser parte de uma caminhada compartilhada. Comunicar diagnósticos, mesmo os mais desafiadores, é também abrir caminhos, organizar próximos passos e fortalecer a família para seguir em frente com mais clareza e segurança. É isso que transforma a avaliação em um verdadeiro instrumento de cuidado.
Escritor por:
Rafaela Pereira Nóbrega
9º Período de Psicologia
PUC Minas
Estagiária Neuropsicoterapia
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