Habilidades sociais e cotidiano: por que fazem tanta diferença? – Entrevista com a Dra. Annelise Júlio-Costa

As habilidades sociais estão presentes em praticamente todas as áreas da vida, embora muitas vezes passem despercebidas. Desde conversas cotidianas até situações mais complexas, como lidar com conflitos, estabelecer limites ou expressar necessidades, a forma como nos relacionamos com os outros influencia diretamente nosso bem-estar, nossa saúde emocional e a qualidade dos vínculos que construímos.

Apesar disso, muitas pessoas não reconhecem que parte de seus desafios emocionais e interpessoais pode estar relacionada ao repertório de habilidades sociais. Dificuldades em dizer não, comunicar sentimentos, lidar com críticas ou se posicionar de maneira assertiva costumam gerar impactos significativos na vida pessoal, acadêmica e profissional, principalmente quando falamos das neurodivergências.

Para aprofundar essa discussão, a Dra. Annelise Júlio Costa compartilhou sua perspectiva sobre o papel das habilidades sociais no cotidiano, os prejuízos que podem surgir quando elas estão comprometidas e as possibilidades de desenvolvimento ao longo da vida.

A seguir, destacamos os principais pontos abordados na entrevista.

Como as habilidades sociais influenciam, de forma mesmo que silenciosa, a qualidade de vida e o cotidiano das pessoas?

Dra. Annelise Júlio Costa:

Eu acho que as habilidades sociais influenciam a vida de um jeito muito silencioso mesmo. Porque, muitas vezes, a pessoa não chega dizendo: “eu tenho dificuldade em habilidades sociais”. Ela chega dizendo que está cansada, que se sente inadequada, que as relações dão trabalho demais, que no trabalho se sente mal interpretada, que na família engole muita coisa, ou que vive se arrependendo do que falou, ou ainda do que não conseguiu falar.

E aí, quando a gente olha com mais atenção, percebe que boa parte do sofrimento está acontecendo nesse espaço das relações. No jeito de pedir ajuda, de colocar limite, de dizer não, de se posicionar, de discordar, de demonstrar afeto, de lidar com críticas, de entender o que o outro quis dizer. E quero destacar, habilidade social não é ser extrovertido, não é ser simpático o tempo todo, não é performar uma sociabilidade bonita para os outros. Para mim, tem muito mais a ver com conseguir estar nas relações com um pouco mais de segurança, de clareza e de autenticidade. É conseguir cuidar do vínculo sem se abandonar no processo.

Isso muda muito a qualidade de vida. Porque uma pessoa que consegue se comunicar melhor, pedir o que precisa, sustentar seus limites e compreender melhor as situações sociais tende a viver com menos culpa, menos confusão e menos sensação de estar sempre errando.

Em que momento as dificuldades em habilidades sociais deixam de ser apenas um traço e passam a gerar prejuízos reais?

Dra. Annelise Júlio Costa:

Eu acho que vira prejuízo quando começa a restringir a vida da pessoa. Todo mundo tem características. Tem gente mais reservada, mais direta, mais intensa, mais sensível, mais objetiva, mais observadora. Isso, por si só, não é um problema. O problema começa quando esse funcionamento começa a impedir a pessoa de viver coisas importantes para ela. Por exemplo: quando ela deixa de ir a lugares porque acha que não vai saber se comportar; quando perde oportunidades porque não consegue se colocar; quando aceita situações que machucam porque não consegue dizer não; quando vive se sentindo inadequada depois de interações simples; quando entra em conflitos repetidos; ou quando precisa se esforçar tanto para parecer bem socialmente que termina o dia exausta. Às vezes, o prejuízo não aparece como uma grande crise. Aparece como uma vida menor. A pessoa vai evitando, vai se calando, vai se moldando, vai se escondendo, vai se protegendo tanto que, quando percebe, está vivendo muito distante do que gostaria.

E eu acho importante dizer isso com cuidado: dificuldade social não é falha de caráter. Não é falta de educação necessariamente. Não é “frescura”. Muitas vezes é história de vida, é falta de repertório, é ansiedade, é neurodivergência, é medo de rejeição, é tentativa de sobrevivência. Só que, em algum momento, aquilo que protege também pode começar a aprisionar.

O que as pessoas costumam não perceber sobre suas próprias dificuldades sociais no dia a dia?

Dra. Annelise Júlio Costa:

Eu acho que muita gente não percebe o quanto está no automático. Tem pessoas que acham que são apenas “boazinhas”, mas na verdade têm muita dificuldade de dizer não. Outras acham que são apenas “sinceras”, mas não percebem que às vezes a forma de falar machuca. Tem gente que se define como “antissocial”, mas está, na verdade, com medo de ser rejeitada. Tem gente que acha que é “muito tranquila”, mas está engolindo tudo e depois explode. E tem gente que acha que é “difícil”, quando talvez nunca tenha aprendido outro jeito de se comunicar.

Também tem uma coisa que eu vejo muito: a pessoa percebe o sofrimento, mas não percebe o padrão. Ela percebe que saiu mal de uma conversa, que ficou ansiosa, que ficou remoendo, que se sentiu excluída, que se arrependeu. Mas não consegue identificar o que acontece antes, durante e depois dessas interações. E, sem perceber o padrão, fica parecendo que o problema é a pessoa inteira. “Eu sou estranha”, “eu sou inadequada”, “ninguém gosta de mim”, “eu sempre erro”. Quando, muitas vezes, não é sobre a pessoa ser errada. É sobre ela precisar entender melhor o próprio funcionamento e construir mais repertório para lidar com o mundo social.

É possível desenvolver habilidades sociais ao longo da vida? O que costuma facilitar ou dificultar esse processo?

Dra. Annelise Júlio Costa:

Sim, é possível. E eu acho isso muito bonito, inclusive. Porque habilidades sociais não são uma coisa fixa, que a pessoa tem ou não tem. São repertórios. E repertórios podem ser aprendidos, treinados, ampliados e ajustados.

Mas eu gosto de pensar nisso de um jeito bem cuidadoso. Desenvolver habilidades sociais não é virar outra pessoa. Não é ensinar uma pessoa introvertida a fingir extroversão. Não é fazer uma pessoa autista mascarar mais. Não é ensinar alguém a agradar todo mundo. É ajudar essa pessoa a ter mais recursos para viver as relações com menos sofrimento e mais autonomia.

O que facilita muito é trabalhar com situações reais. Não adianta ficar só no “você precisa se comunicar melhor”. Tá, mas onde? Com quem? Em que momento? O que você queria ter dito? O que você disse? O que você sentiu? O que você evitou? O que seria uma resposta possível, respeitando o seu jeito, mas também respeitando a situação? Também facilita quando a pessoa tem ambientes minimamente seguros para praticar. Porque ninguém desenvolve habilidade social só pensando sobre ela. A gente desenvolve vivendo, testando, errando um pouco, ajustando, tentando de novo.

O que dificulta é a vergonha, o medo de julgamento, experiências anteriores de exclusão, ambientes muito críticos e, claro, algumas condições que podem atravessar esse processo, como autismo, TDAH, ansiedade social, altas habilidades, traumas relacionais. Nesses casos, o caminho precisa ser ainda mais individualizado. Não existe receita pronta.

Se você tivesse que destacar uma mudança simples, mas transformadora, relacionada às habilidades sociais, qual seria?

Dra. Annelise Júlio Costa:

Eu acho que uma mudança simples e muito transformadora é aprender a fazer pequenas pausas. Pausar antes de responder. Pausar antes de aceitar. Pausar antes de se justificar. Pausar antes de explodir. Pausar antes de concluir que o outro não gostou de você. Pausar antes de dizer sim quando, por dentro, você queria dizer não. A pausa parece pequena, mas ela muda muita coisa, porque cria um espaço entre o impulso e a resposta. E, nesse espaço, a pessoa consegue se perguntar: “o que eu estou sentindo?”, “o que eu quero comunicar?”, “eu estou respondendo para agradar, para me defender ou para me posicionar?”, “isso que eu vou dizer me aproxima ou me afasta do tipo de relação que eu quero construir?”.

Para mim, habilidade social tem muito a ver com isso: sair um pouco do automático e entrar nas relações com mais consciência. Não para controlar tudo. Não para acertar sempre. Mas para se relacionar de um jeito menos sofrido, mais honesto e mais possível. No fim, habilidades sociais não são sobre ser perfeito socialmente. São sobre conseguir existir com mais inteireza nas relações.

Conclusão

As habilidades sociais estão longe de se resumirem à simpatia, à extroversão ou à facilidade para conversar. Como destacou a Dra. Annelise Júlio Costa, elas dizem respeito à capacidade de construir relações mais autênticas, comunicar necessidades, estabelecer limites e navegar pelos desafios cotidianos de forma mais consciente e menos sofrida.

Ao longo da entrevista, fica evidente que as dificuldades sociais nem sempre aparecem de maneira óbvia. Muitas vezes, manifestam-se por meio de sentimentos de inadequação, conflitos recorrentes, exaustão emocional ou pela restrição gradual das experiências de vida. Quando não são compreendidas, essas dificuldades podem levar a pessoa a acreditar que há algo de errado com quem ela é, quando, na realidade, pode haver um repertório de habilidades sociais reduzido ou poucos recursos para lidar com determinadas situações interpessoais.

Ao mesmo tempo, a entrevista reforça uma mensagem importante: habilidades sociais podem ser desenvolvidas ao longo de toda a vida. Com autoconhecimento, prática e contextos seguros para experimentar novas formas de interação, é possível ampliar recursos, reduzir sofrimento e construir relações mais saudáveis.

Talvez, como sugere a Dra. Annelise, uma das mudanças mais transformadoras comece por algo simples: criar pequenas pausas entre o impulso e a resposta. É nesse espaço que surge a possibilidade de agir com mais consciência, autenticidade e alinhamento com o tipo de relação que desejamos construir.

 

Escrito por:

Ananda Toledo

7º período de Psicologia

PUC Minas

Estagiária Neuropsicoterapia

[email protected]