Muitas pessoas vivem toda a sua vida se sentindo desajustadas, diferentes, até mesmo “estranhas” aos outros. Desde cedo, aprendem a desenvolver estratégias para se adaptar, mascarar dificuldades e tentar funcionar dentro das expectativas sociais. Mas a verdade é que, mesmo com as devidas adaptações, tais condições ainda geraram sofrimento psíquico, exaustão e desafios cotidianos que parecem desproporcionais quando comparados às experiências das outras pessoas. Frequentemente, surge a sensação de que tarefas consideradas simples pelos demais exigem delas um esforço constante e intenso, sem que compreendam exatamente o motivo disso.
Este cenário é clássico para pessoas que estão em busca do diagnóstico tardio. Isto é, a busca pelo diagnóstico muito tempo após o surgimento e desenvolvimento dos sintomas. Condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) costumam se manifestar ainda na infância, mas, um pessoas que crescem sem o acesso ao diagnóstico não é um cenário incomum. O aumento recente no número de diagnósticos de TEA no Brasil não significa que antes houvesse menos pessoas autistas, mas evidencia o quanto faltavam informação e acesso. Enquanto a maior parte dos diagnósticos atualmente se concentra em crianças entre 5 e 9 anos, os números diminuem drasticamente entre adultos acima dos 45 anos. Isso não significa que não existam autistas mais velhos, mas sim que muitos passaram a vida inteira sem serem identificados (Siqueira, 2025).
Diante disso, vamos explorar alguns mitos e verdades sobre o diagnóstico tardio.
Mito: “Se não foi diagnosticado até hoje, não deve ter sintomas graves”
Verdade: A falta de informação e/ou acesso forçam pessoas a conviverem com tais desafios e dificuldades, criando estratégias para agir o mais próximo possível do que é considerado adequado. A esse comportamento damos o nome de “masking”. Muitas vezes, essa capacidade de “mascarar” as dificuldades, pode fazer com que o sofrimento passe despercebido por terceiros, mas isso não quer dizer que ele não exista.Pelo contrário, a falta de reconhecimento dessas condições pode levar à negação de direitos e à falta de não a suportes fundamentais, comprometendo a qualidade de vida desse indivíduo.
Mito: “Agora que está mais velho, não adianta mais. A terapia não vai funcionar”
Verdade: Este seria o famoso “não se ensina truques a um cachorro velho”. Porém, esta lógica não se aplica em nada no caso do diagnóstico tardio. Como dito anteriormente, a capacidade de “passar despercebido” ou “ser funcional” apesar de sua condição não altera o nível de sofrimento de uma pessoa. Embora o diagnóstico precoce seja o mais ideal, descobrir uma condição na vida adulta traz alívio, autoconhecimento e direcionamento para tratamentos adequados. O tratamento psicológico é atemporal, e poderá contribuir para a criação de condições mais favoráveis de vida em qualquer idade.
Mito: “Essa pessoa estudou, trabalha, e pode até ter um relacionamento e filhos, ela não tem nenhum transtorno”.
Verdade: Ter uma vida que aparentemente corresponde às expectativas sociais e culturais é um dos principais motivos pelos quais muitas pessoas têm suas dificuldades invalidadas ou sequer consideram a possibilidade de um diagnóstico. Isso acontece porque existe a ideia equivocada de que alguém que estuda, trabalha, se relaciona ou obtém sucesso profissional não poderia apresentar um transtorno do neurodesenvolvimento. Porém, a capacidade de se adaptar e funcionar socialmente não anula a neurodivergência, nem o sofrimento associado a ela. Muitas vezes, o que existe é um sofrimento invisível, sustentado por um esforço constante para corresponder ao que é esperado socialmente. Em diversos casos, o sucesso vem acompanhado de exaustão emocional, ansiedade, sobrecarga e sensação contínua de inadequação. Por isso, o diagnóstico é importante não apenas para compreender essas dificuldades, mas também para possibilitar intervenções e estratégias que promovam mais qualidade de vida.
Mito: “O diagnóstico só serve para ser usado como desculpa para não evoluir”
Verdade: Um diagnóstico não “justifica falhas”, mas sim serve como meio de autoconhecimento que permite a busca por tratamento ideal e adaptações cabíveis. O diagnóstico permite que essas experiências deixem de ser interpretadas apenas como falhas morais ou falta de esforço, e sejam compreendidas como uma condição a partir da qual é possível ter um desenvolvimento saudável em todas as áreas da vida
Conclusão
Viver constantemente tentando se adaptar, esconder dificuldades e corresponder a expectativas incompatíveis com a própria forma de funcionamento pode gerar um desgaste emocional profundo. Muitos quadros de ansiedade e depressão surgem como sintoma de um ambiente que não reconhece e acolhe a neurodivergência. Nesse sentido, o diagnóstico tardio não deve ser visto como um “rótulo”, mas como uma possibilidade de compreensão e mudança. Mesmo quando acontece de maneira tardia, ele pode representar o início de uma relação mais saudável consigo mesmo, permitindo acesso a tratamento adequado, suporte, adaptações e melhores condições de qualidade de vida. Reconhecer a própria condição não muda o passado, mas pode transformar a forma como a pessoa vive o presente.
Referências bibliográficas:
Siqueira, Breno . “Censo 2022 Identifica 2,4 Milhões de Pessoas Diagnosticadas Com Autismo No Brasil” Agência de Notícias – IBGE, 13 de Maio de 2025, agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43464-censo-2022-identifica-2-4-milhoes-de-pessoas-diagnosticadas-com-autismo-no-brasil.
Escrito por:
Melissa Hadassa de Paula Silva
10° Período de Psicologia
PUC Minas
Estagiária Neuropsicoterapia
@melissahadassa.psi
[email protected]

