Imagine a cena: você se lembra que tem uma importante tarefa, liga o computador e, no momento de fazer a atividade, as ideias parecem “sumir da cabeça”. Já viveu ou presenciou algo parecido? Isso pode ser um reflexo do estresse crônico impactando diretamente sua memória de trabalho.
É importante lembrar que o estresse em determinadas circunstâncias é uma expressão adaptativa do corpo. Porém, quando ocorre de maneira contínua, pode gerar complicações profundas no organismo, impactando a fisiologia humana e o bem-estar subjetivo. Quando há déficits no funcionamento da memória de trabalho (ou memória operacional), há diminuição na capacidade de realizar tarefas cognitivas complexas, algo imprescindível na cada vez mais acelerada modernidade.
Neste post, iremos trazer algumas atualizações científicas acerca dessa complexa interação, em uma perspectiva biopsicossocial integrada.
Os contínuos avanços no campo neurocientífico estão possibilitando compreender dinâmicas ainda pouco explicadas acerca das mudanças sofridas pelo sistema nervoso central ante estímulos ambientais, capazes de gerar alterações na arquitetura neuronal e mudanças ao nível molecular.
Um estudo publicado por um grupo de pesquisadores nos EUA investigou como o estresse afetaria a conectividade do córtex pré-frontal (CPF), área organizadora das variadas funções executivas, como a própria memória operacional (MO)¹. Em estados de maior tensão, haveria a elevação das catecolaminas (neurotransmissores que atuam no CPF) a níveis neurotóxicos, gerando a diminuição da eficiência sináptica nessa área cerebral. Mais ainda, o estresse crônico induziria mecanismos de remoção das chamadas espinhas dendríticas, terminações membranosas pós-sinápticas fundamentais para a plasticidade e interconexão neuronal, gerando redução na eficiência da MO. Vale destacar que esse estudo foi feito com roedores, por motivos práticos e éticos.
O cérebro não é inerte ao estresse
Fica a dúvida: essa correlação se verificaria em humanos? Sabe-se que o estresse contínuo mantém uma liberação sustentada e disfuncional do hormônio cortisol, podendo desencadear uma série de problemas clínicos, como a hipertensão. Em 2022, endocrinologistas chineses buscaram verificar os impactos cognitivos em pacientes com Síndrome de Cushing (SC), uma condição endócrina caracterizada pela liberação excessiva desse hormônio no corpo². Na investigação, perceberam notáveis déficits cognitivos no grupo analisado, principalmente quanto à MO e habilidades visuoespaciais, em relação direta com os níveis de cortisol no organismo. Haveria uma maior ocorrência de queixas de memória e comprometimento cognitivo leve em pacientes com SC, o que poderia indicar de forma naturalista a relação entre declínio da MO e fatores orgânicos envolvidos com o estresse.
Estar atento a si mesmo pode fazer bem
Talvez você esteja agora se questionando: em um mundo cada vez mais acelerado, o que fazer? Nas publicações, os autores frequentemente relatam que os mecanismos que envolvem estresse e MO ainda não são plenamente conhecidos, e que haveria ainda menos pesquisa acerca dos fatores protetivos à cognição. Há indícios, entretanto, de que o exercício da autoconsciência (self-awareness) poderia ajudar nesse impasse.
Para compreender melhor esse aspecto, outro estudo quis verificar como o priming de autoconsciência poderia impactar positivamente o desempenho da MO, por meio do aumento da alocação de recursos atencionais³. Os pesquisadores buscaram compreender essa questão avaliando estudantes que se preparavam para um exame equivalente ao ENEM brasileiro, inseridos assim em um contexto de estresse crônico.
Os alunos foram divididos em dois grupos. O grupo teste (ou “grupo autoconsciência”) recebeu como tarefa desembaralhar frases começadas com o pronome “eu” (ex.: “eu compro pães”), possibilitando um priming implícito de autoconsciência. Já o grupo controle realizou uma tarefa similar, porém as frases se iniciavam com “ele” e “ela” (ex.: “ela compra pães”), de caráter neutro. Na sequência, foi aplicada uma Tarefa Visual N-Back, utilizada para avaliar a memória de trabalho.
Os resultados desse estudo são muito interessantes. Em aspectos comportamentais, o grupo autoconsciência demonstrou respostas mais rápidas e precisas na Tarefa N-Back, comparados ao grupo controle. Mais ainda, com base no monitoramento da atividade elétrica cerebral destes participantes durante as tarefas (os chamados “registros de potenciais de eventos relacionados” – ERPs), foram percebidas importantes alterações na modulação das ondas, indicando que a autoconsciência poderia permitir uma melhor alocação de recursos da atenção voltados à tarefa, indicando um possível efeito protetivo.
Vendo a árvore e a floresta: o seu estresse é também social
Os entendimentos neurobiológicos, comportamentais e neurocognitivos, para fazerem sentido, precisam sempre estar relacionados com aspectos da cultura e formação social nas quais cada pessoa está inserida. As implicações à vivência e à funcionalidade, portanto, necessariamente precisam ser analisadas com base na realidade objetiva que fundamenta a existência, seja ela do indivíduo ou dos grupos sociais4.
No Brasil, vemos como a síndrome de Burnout, por exemplo, atinge níveis cada vez mais preocupantes ao nível epidemiológico, destacando riscos psicossociais5. Isso demonstra um claro exemplo clínico que integra aspectos de estresse sustentado, o qual impacta diversas dimensões cognitivas, como a MO, mas também o humor e o bem-estar global dessas pessoas, gerando altíssimos níveis de afastamento laboral6. Segundo um levantamento da Ipsos Health Service Report de 2025, a saúde mental seria o principal tema de preocupação para 52% dos brasileiros, mostrando um enorme salto desde 2018, quando o índice era de 18%7. O estresse em si seria o terceiro tema de preocupação (33%), superando até mesmo a questão do abuso de drogas (26%).
Nesse contexto de grande declínio na saúde mental coletiva pós-pandemia e em um mundo cada vez mais instável, nossos cérebros estão sob “bombardeio” crescente de estímulos, notícias e mudanças que impactam a todos, ainda que de modo particular. Nesse sentido, os recentes estudos sobre a disfuncionalidade da MO sob estresse crônico indicam claramente como, até mesmo em escala celular, a sociedade moderna está passando por um período de grande complexidade, demandando mais ciência, racionalidade e ambientes sociais promotores de saúde mental.
Referências bibliográficas:
- ARNSTEN, Amy F. T. et al. Chronic stress weakens connectivity in the prefrontal cortex: architectural and molecular changes. *Chronic Stress*, v. 5, p. 1-14, 2021. DOI: 10.1177/24705470211029254. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8408896/.
- LIU, Meng-Si et al. Impaired cognitive function in patients with autonomous cortisol secretion in adrenal incidentalomas. *The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism*, v. 108, n. 4, p. 923-932, 2023. DOI: 10.1210/clinem/dgac598. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36263685/.
- XU, Mengsi et al. Self-awareness protects working memory in people under chronic stress: an ERP study. *Frontiers in Psychology*, v. 13, p. 1-13, 2022. DOI: 10.3389/fpsyg.2022.1003719. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2022.1003719/full.
- SILVA, Marinalva de Souza Teixeira; TORRES, Cláudia Regina de Oliveira Vaz. Alterações neuropsicológicas do estresse: contribuições da neuropsicologia. *Revista Científica Novas Configurações – Diálogos Plurais*, Luziânia, v. 1, n. 2, p. 67-80, 2020. DOI: 10.4322/2675-4177.2020.021. Disponível em: http://www.dialogosplurais.periodikos.com.br/article/10.4322/2675-4177.2020.021/pdf/dialogosplurais-1-2-67.pdf.
- FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Repórter SUS: classificação da OMS para síndrome de burnout passa a valer no Brasil. *Portal Fiocruz*, Rio de Janeiro, 17 jan. 2025. Disponível em: https://fiocruz.br/noticia/2025/01/reporter-sus-classificacao-da-oms-para-sindrome-de-burnout-passa-valer-no-brasil.
- SOUZA, Lídia Miranda de et al. Estresse crônico e suas repercussões sistêmicas. *Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences*, v. 6, n. 5, p. 105-118, 2024. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/5640/5555.
- IPSOS. Ipsos: 52% dos brasileiros dizem que saúde mental é o principal problema de saúde do país. *G1*, São Paulo, 7 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/10/07/ipsos-saude-mental.ghtml.
Escrito por:
Israel Ribeiro Barbosa
5° Período de Psicologia
Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Estagiário Neuropsicoterapia

