O TDAH pode não ser um único transtorno? Novo estudo identifica três possíveis biotipos cerebrais

Quando pensamos em Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), é comum imaginarmos um único transtorno que pode se manifestar de diferentes formas. Algumas pessoas apresentam principalmente dificuldades de atenção; outras se destacam pela hiperatividade e impulsividade; e há ainda aquelas cujos maiores desafios envolvem a regulação emocional. Apesar dessas diferenças, todas recebem o mesmo diagnóstico.

Essa diversidade sempre chamou a atenção de pesquisadores e clínicos. Afinal, se duas pessoas podem ter manifestações tão diferentes e, ainda assim, serem classificadas da mesma forma, será que elas compartilham exatamente os mesmos mecanismos cerebrais?

Essa pergunta tem ganhado força nos últimos anos e foi justamente o ponto de partida de um estudo publicado em 2026 na JAMA Psychiatry. Em vez de investigar apenas os sintomas do TDAH, os pesquisadores buscaram identificar se existiriam biotipos, ou seja, subgrupos definidos por padrões distintos de organização cerebral. A proposta é simples, mas bastante inovadora: talvez o TDAH não seja uma condição única, e sim um conjunto de perfis neurobiológicos diferentes que hoje recebem o mesmo diagnóstico.

Essa hipótese faz sentido quando pensamos na prática clínica. Dois pacientes podem preencher todos os critérios diagnósticos para TDAH e, ainda assim, apresentar dificuldades bastante diferentes. Enquanto um tem prejuízo principalmente na atenção sustentada, outro enfrenta grandes dificuldades para controlar impulsos, e um terceiro convive com intensa desregulação emocional.

Essa heterogeneidade representa um desafio importante para a pesquisa. A classificação atual é baseada nos comportamentos observados, mas os sintomas podem ser o resultado final de mecanismos cerebrais distintos. Em outras palavras, pessoas com o mesmo diagnóstico podem não compartilhar exatamente a mesma neurobiologia. Foi justamente tentando responder a essa questão que os pesquisadores desenharam o estudo.

Para investigar essa hipótese, pesquisadores reuniram uma grande amostra multicêntrica composta por 446 crianças com TDAH e 708 crianças com desenvolvimento típico. Posteriormente, os resultados foram testados em uma segunda amostra independente, formada por 554 crianças com TDAH e 123 controles, permitindo verificar se os achados poderiam ser reproduzidos em outro grupo de participantes. Todas essas crianças realizaram ressonância magnética estrutural.

É importante destacar que os pesquisadores não avaliaram a atividade cerebral, como ocorre na ressonância funcional (fMRI). O objetivo foi analisar a anatomia do cérebro e compreender como diferentes regiões apresentavam características estruturais semelhantes entre si. 

Um olhar para a organização do cérebro

Em vez de perguntar se determinada região era maior ou menor, o estudo avaliou como diferentes áreas do cérebro se relacionavam estruturalmente.

Para isso, foi utilizada uma técnica chamada Morphometric Similarity Network (MSN), que cria um mapa das semelhanças estruturais entre diferentes regiões cerebrais.

Uma forma simples de entender esse método é imaginar uma fotografia aérea de uma cidade. Em vez de analisar apenas um bairro isoladamente, o computador compara características de todos os bairros e identifica quais possuem estruturas semelhantes, formando uma rede de conexões. Foi exatamente essa lógica aplicada ao cérebro: compreender sua organização como um todo, e não apenas alterações em regiões isoladas. 

Outro diferencial importante foi o uso de um modelo normativo. Em vez de comparar apenas o grupo com TDAH ao grupo controle, cada criança foi comparada com aquilo que seria esperado para alguém da mesma idade e sexo, de forma semelhante ao funcionamento das curvas de crescimento utilizadas na pediatria.

Assim, foi possível identificar quais regiões cerebrais apresentavam desvios em relação ao padrão esperado para cada indivíduo. 

A inteligência artificial encontrou três biotipos

Somente após identificar esses padrões cerebrais individuais, os pesquisadores utilizaram um algoritmo de inteligência artificial chamado HYDRA.

Um aspecto importante é que os sintomas não foram utilizados para formar os grupos. O algoritmo agrupou as crianças exclusivamente com base nas características observadas na organização cerebral. Apenas depois disso os pesquisadores analisaram quais perfis clínicos estavam associados a cada grupo. 

Biotipo 1: maior gravidade clínica e desregulação emocional

O primeiro grupo apresentou o perfil clínico mais grave.

Essas crianças apresentavam níveis elevados de desatenção, hiperatividade, impulsividade e importantes dificuldades de regulação emocional. Também foi o grupo com as alterações cerebrais mais extensas, especialmente envolvendo conexões entre o córtex pré-frontal medial e o pálido, regiões relacionadas ao planejamento, tomada de decisão, controle emocional e controle dos impulsos.

Durante o acompanhamento ao longo de aproximadamente quatro anos, esse grupo continuou apresentando dificuldades significativas na regulação emocional, sugerindo um prognóstico menos favorável quando comparado aos demais biotipos.

Fonte: Modificado de Pan et al., 2026 [Tradução livre].

Biotipo 2: predominância de hiperatividade e impulsividade

O segundo grupo foi composto principalmente por crianças com sintomas predominantes de hiperatividade e impulsividade.

As principais alterações cerebrais envolveram o circuito entre o córtex cingulado anterior e o pálido, regiões importantes para monitoramento de erros, controle inibitório e seleção de respostas adequadas diante de conflitos.

Esse perfil ajuda a compreender por que essas crianças apresentavam maior impulsividade em comparação aos demais grupos. 

Fonte: Modificado de Pan et al., 2026 [Tradução livre].

Biotipo 3: predominância de desatenção

O terceiro grupo apresentou principalmente sintomas de desatenção.

As alterações estruturais concentraram-se no giro frontal superior, região envolvida em funções executivas, memória de trabalho e atenção sustentada, capacidades frequentemente comprometidas no TDAH predominantemente desatento. 

Fonte: Modificado de Pan et al., 2026 [Tradução livre].

E os neurotransmissores?

Os pesquisadores não mediram diretamente neurotransmissores, como dopamina ou serotonina, nas crianças participantes. O que eles fizeram foi comparar as regiões cerebrais alteradas de cada biotipo com mapas científicos previamente publicados que mostram onde há maior concentração de determinados receptores no cérebro.

Assim, encontraram correspondências diferentes entre os biotipos e alguns sistemas neuroquímicos. Entretanto, esses resultados são considerados exploratórios e não permitem concluir quais neurotransmissores estão alterados nem indicar medicamentos específicos para cada grupo.

O que esse estudo muda na prática clínica?

Ainda não muda, mas é um ponto inicial.

Os próprios autores destacam que esses achados representam um avanço na compreensão da heterogeneidade do TDAH, mas ainda não justificam mudanças no diagnóstico ou na escolha dos tratamentos utilizados atualmente.

O principal mérito do estudo foi mostrar que diferentes perfis clínicos podem refletir diferenças reais na organização cerebral, reforçando a possibilidade de que, no futuro, o diagnóstico do TDAH seja mais individualizado e baseado não apenas em sintomas, mas também em marcadores biológicos.

Considerações finais

A heterogeneidade sempre foi uma das características mais marcantes do TDAH. Este estudo oferece evidências de que essa diversidade pode estar relacionada a diferentes padrões de organização cerebral, identificando três biotipos com perfis clínicos distintos.

Embora ainda seja cedo para aplicar esses achados na prática clínica, eles representam um passo importante em direção a uma prática mais personalizada, na qual compreender as diferenças entre indivíduos pode ser tão importante quanto reconhecer aquilo que eles têm em comum.

Observação: Este texto foi elaborado com base no artigo científico citado abaixo. Os trechos e conceitos apresentados correspondem a uma tradução livre e adaptação do conteúdo original.

Referência bibliográfica

PAN, Nanfang; LONG, Yajing; QIN, Kun; et al. Mapping ADHD heterogeneity and biotypes by topological deviations in morphometric similarity networks. JAMA Psychiatry, Chicago, publicação online, 25 fev. 2026. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2026.0001.